domingo, 2 de novembro de 2008

MANCHETES

OS ASSUNTOS MAIS BACANAS,OU MAIS POLÊMICOS,
OU MAIS DEBATIDOS NA TAVERNA
AUTOR -Lilian

Lições de vida
Era um sábado à noite, uma noite gelada de Agosto. Estou contando isso porque não consegui esquecer (e porque já bebi um cadinho e estou de pileque). rs

Talvez não esqueça nunca. Esperava a namorada em frente a uma barraquinha de pipocas; em frente ao Lumière; enquanto aguardava sua volta com os ingressos para o filme, o velhinho apareceu. Sujo e amarrotado.


Mendigos se parecem em todos os lugares do mundo, pensei. Mas este era diferente; não pediu nada a ninguém; uma madame comprou pipoca, um casal também. O velhinho mendigo continuou ali, paciente, sentado em frente a um enorme banco, império das riquezas e dos gerentes sem alma. Mas era sábado à noite, de modo que ninguém o expulsou.

Então eu tremia de frio, apesar do casaco grosso; e ele ali, o velhinho, me olhou. Retribuí. Então ele sorriu, e tinha os olhos mais doces do mundo. Tirou das suas coisas uma sacolinha branca de supermercado, amarrotada e suja. E falou com o pipoqueiro que, gentil, encheu a sacola do velho mendigo com pipocas. As mesmas que iam alimentar a madame, o casal de namorados e, logo em seguida, também eu.

Engoli em seco. O velhinho mantinha a sanidade e uma certa dignidade por trás do cobertor sujo. Novamente, me olhou e sorriu. E me disse: boa noite! Sorriu novamente, encantado pela minha resposta ao cumprimento. Depois, sentou na frente do banco, enrolou-se e começou a comer as pipocas, entre feliz e envergonhado.

Eu engoli em seco, novamente. Pensando na virtude do meu belo casaco, no abraço quente da minha namorada, na cama quentinha que me esperava. Triste. O céu tinha estrelas, as mesmas que eu e o pobre senhor enxergava, também. A luz fraca da noite era nossa. Tão minha quanto dele quanto da madame, quanto do casal de namorados, quanto do pipoqueiro generoso. Mas não tive vontade de me olhar no espelho, depois. Podia ser qualquer um de nós ali.

E a noite continuou fria e escura, e mais triste. Mesmo.

Alguma história que tenha te sacudido assim?

4 comentários:

Adriana Silveira disse...

Lindo mesmo quando conseguimos parar para ver esse tipo de coisa, nos faz realmente voltar e sentir vergonha de olhar no espelho!

Anônimo disse...

DE UMA SENSIBLIDADE SEM PAR...

Cássio disse...

muito bom mesmo...

Deborah Brandão disse...

É maravilhosa a foram como a Li nos trtansmite a cena com delicadeza, de uma sensibilidade que nos toca a alma.